Vai pra bola o melhor batedor de bolas paradas do país. Pênalti é cabeça. Ele é experiente, tem 35 anos. O goleirinho, de 18 anos, tremia, e caiu como um saco de batatas antes da batida para o canto direito. Era só rolar pro canto oposto. Marcos Assunção não aguentou a pressão e se limitou a fechar os olhos e bater forte – exatamente onde o menino já estava caído.
Ganhamos um Derby há uma semana, mas bastou perder um jogo no meio da semana que a pressão já voltou, e no nível máximo. O problema no Palmeiras, está claro, é o mesmo que devastou o clube na década de 80, e apenas um choque de gestão vai tirar o Verdão outra vez dessa draga. Temos no horizonte uma Arena que pode ser o motor desse choque. Mas um estádio, sozinho, não vai fazer nada.
Kleber treinou normalmente ontem, e correu bastante, deu piques, e tudo indicava que iria para o jogo. Mas resolveu sentir dor no vestiário. Agora ele usa o mesmo expediente que serviu para desmentir a ressonância do Einstein: o teste clínico. Kleber sente dores. Quem foi pro jogo foi Vinicius. O menino fez um primeiro tempo pavoroso, caindo pela direita, foi praticamente um zagueiro do Cruzeiro. Sentindo bastante a falta não apenas de Kleber, mas também de Valdivia, a única jogada do time era a ligação direta de Marcos Assunção para o peito de Luan na esquerda, por trás de Marquinhos Paraná, e seja o que San Gennaro quiser. Com exceção de um ou outro tiro de fora, e do golaço de Fernandão anulado por impedimento (na verdade a jogada já estava parada no cruzamento de Patrik para Vinicius), o Palmeiras pouco ameaçou o gol de Rafael.
Defensivamente, o time foi bem, com boas partidas de Marcio Araújo e Henrique, ajudados pelo posicionamento equivocado de Montillo, como atacante. Sem ligação, a cargo do pífio Roger Galisteu, o Cruzeiro só conseguiu criar num erro de nosso zagueiro reserva: Montillo caiu pela direita e lançou para a área, Mauricio Ramos estava pensando na feijoada de ontem e ficou esperando Anselmo Ramon se antecipar para quase fazer.
O time voltou para o segundo tempo com a mesma escalação, mas a atitude foi diferente, principalmente por parte de Vinicius. O menino pareceu ter percebido que seria uma de suas últimas chances no time, e passou a acertar quase tudo, dando um calor no tal de Gabriel Araújo. E a pressão foi intensa: primeiro num chute de fora de Marcos Assunção, que explodiu no peito do goleiro, depois num escanteio que Luan pegou a sobra e só não fez porque a bola resvalou em Naldo, e numa cabeçada forte de Fernandão após levantamento de Cicinho, que Rafael pegou muito bem.
O gol do Palmeiras estava maduro, mas Felipão resolveu trocar Patrik por Tinga. Não que o 40 estivesse numa grande partida, mas o 17 não faria nada muito melhor, e quebrou um pouco o ritmo do time. E num contra-ataque, Montillo deitou em cima de Mauricio Ramos e deu o passe açucarado para Anselmo Ramon, que repetiu o gol perdido do primeiro turno e bateu para fora com o gol à disposição.
“A bola pune”: perderam um gol feito aqui, na sequência, gol do Verdão lá – Luan começou a jogada, fez ótima tabela com Fernandão e bateu, Rafael deu rebote e o próprio Luan fez, pelo alto. Beleza de gol.
Aí as pernas dos caras começaram a pesar. Fernandão saiu pra entrada de Ricardo Bueno. João Vítor entrou no Vinicius. E os que ficaram em campo se borravam. A bola queimava no pé de todos. Não se via em campo um time experiente, que cozinhasse o jogo. A bola não parou mais nos pés dos jogadores de verde. Mesmo assim, o esquema defensivo estava bem postado. O estagiário Emerson Ávila já tinha enxergado o óbvio e tirado Roger Galisteu, colocando Kerlington no jogo, e puxando Montillo para a armação. Depois do gol, tirou o lateral-esquerdo e colocou mais um atacante, e o Palmeiras aceitou a pressão.
A jogada começou num apoio errado de Gabriel Silva. A bola foi alçada, e ele subiu uma gilete do chão para tentar ganhar o lance. Deixou a avenida aberta, e Henrique e Marcio Araújo não se decidiram quem ia no cara. Era do Henrique, mas quando ele decidiu já era tarde. A bola, enfim, foi para a área; mesmo assim, havia dois em Montillo, Maurício Ramos e Marcos Assunção. Pois o argentino conseguiu girar, enganou os dois palmeirenses que atrapalharam um ao outro, e bateu; a bola passou por baixo de Marcos – que talvez pudesse ter defendido com o pé – e miseravelmente entrou, aos 40 do segundo tempo.
O resto é História. Os dois pontos que o time deixou de ganhar serão lembrados por muito tempo, são emblemáticos.
O clube precisa de um choque. Os dois ídolos vivem fora do time. O técnico, mesmo sendo quem é, não faz milagres, e é refém desses craques. Quando Felipão comete seus erros, diante desse cenário, eles saltam aos olhos. O time é minado diariamente por conselheiros canalhas e por uma imprensa predatória. O resto, fica na conta dos jogadores de composição de elenco que entram em campo enquanto os craques sentem suas dores.
Lá se vai mais um campeonato. Nem é caso de jogar a toalha pela situação matemática. Sete pontos, em 17 rodadas, é bem tirável. Mas depois de hoje, não adianta achar que dá, porque não dá. Nosso treinador já declarou após o jogo que na atual situação, o time não tem mais nada a perder, já que, com 33 pontos em 21 rodadas, temer rebaixamento ou mesmo ficar fora da Sulamericana, nem fazendo tudo errado. Só temos a ganhar, e pra isso, é hora de correr alguns riscos. Na verdade, já era pra ter pensado nisso antes. De qualquer forma, o time vai seguir no perde-e-ganha, não vai embalar, e o que vier, seja uma vaga na Libertadores, seja um improvável título, já virou lucro. Não dá para esperar nada, apesar do esforço quase sobre-humano de Felipão.
O Palmeiras não pode viver situações de o que vier é lucro. Somos um time que sempre, sempre, tem que estar no bolo de cima, brigando por título. É nosso DNA.
Precisamos de um choque.
Atuações:
| Marcos: pegou alguns chutes fáceis de fora. No gol, talvez pudesse ter pego com o pé. Difícil. 6 | |
| Cicinho: boa partida, finalmente. Fez um duelo muito intenso com Gilberto durante o jogo todo. Não brilhou, mas fez bem mais que o básico. 7,5 | |
| Mauricio Ramos: não jogava havia algumas rodadas, então tirou o atraso. Em vez do tradicional um erro fatal por jogo, resolveu bagunçar em todas as jogadas. ZERO | |
| Henrique: vinha fazendo um partidaço, mas falhou no lance capital. Sua demora em cobrir o Gabriel deu no gol. Em tese, era do Araújo, mas pela posição, era dele. 4,5 | |
| Gabriel Silva: participou bastante do jogo, acertou cerca de 30% das jogadas, no olhômetro. Então leva um 3 | |
| Marcio Araújo: a sombra das ótimas partidas de Chico lhe fez bem, fez uma bela apresentação. Pena que isso não signifique uma vitória. 8 | |
| Marcos Assunção: jogou bem. Marcou, distribuiu, bateu faltas e escanteios bem. Com a bola do jogo, tremeu. Deu até pena. Mas deu mais pena de uma nação de palmeirenses. ZERO | |
| Patrik: taticamente bem, sempre presente como opção de toque, mas pouco acionado. Quando era, não fazia nada extraordinário. Nessa posição, precisamos de brilho. 5,5 | |
| Luan: outro que participou demais, e acertou a metade do que tentou. Levaria um cinquinho, mas uma delas foi o gol. Leva 8. | |
| Vinicius: primeiro tempo para esquecer, segundo tempo interessante. Cai na mesma do Patrik: precisamos de gente que decida. 4 | |
| Fernandão: salvou-se. Fez tudo o que se espera de um centroavante. Movimentou-se, abriu os zagueiros, cabeceou, fez pivô, tudo certinho. 8,5 | |
| Tinga: começou na mediocridade de sempre, depois até que apareceu pro jogo. Na boa, era melhor que desaparecesse. 3 | |
| Ricardo Bueno: entrou tímido, nem aos pés do papel desempenhado por Fernandão. Chegou agora, não dá pra exigir muito. S/N | |
| João Vítor: entrou pra congestionar, de repente o time levou um gol. Ele foi pra cima pra resolver. É disso que falamos, alguém que brilhe. A dele, ele fez. 8 | |
| Felipão: no jogo, foi bem. Com exceção de Tinga no Patrik, as outras mexidas, por questões físicas, foram corretas. Fazer o que quando se perde dois pontos chutando um pênalti na mão do goleiro nos descontos? Depois do jogo, declarou que agora o time deve correr mais riscos. Demorou. 6,5 |
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